PCP homenageia resistentes no forte de Peniche

PCP homenageia resistentes no forte de Peniche
O fascismo existiu e a resistência também

Na homenagem aos presos políticos e à resistência antifascista, realizada na fortaleza de Peniche no passado domingo, Jerónimo de Sousa saudou os homens e mulheres que «foram capazes de se superar nas mais difíceis tarefas e transpor os mais espinhosos obstáculos». Muitos estavam presentes.

«Jamais deixaremos usurpar o património de luta de um Partido que foi o força central na resistência ao fascismo», afirmou domingo, no Forte de Peniche, o secretário-geral do PCP. Perante milhares de pessoas, que durante todo o dia visitaram a antiga prisão fascista (ver texto relacionado), Jerónimo de Sousa, valorizando o papel o contributo de «outros antifascistas e resistentes de outras correntes», alertou para as tentativas de rescrever a história da resistência e da luta antifascista: «Falsifica-se o que foi a ditadura; adultera-se o que foi a Revolução de Abril, as suas conquistas e o seu significado; falsifica-se o papel das diversas forças na Resistência e no 25 de Abril; desvirtua-se e deturpa-se o significado, natureza e objectivos do processo contra-revolucionário dos últimos anos.»

Afirmando não ser aquela a oportunidade de «retomar o combate às falsificações da história», o dirigente comunista realçou que há «duas coisas que precisam de ser sempre reafirmadas para que as novas gerações o não esqueçam»: o fascismo existiu e «não foi apenas um regime “autoritário” e “conservador” como alguns teorizadores e certa direita» apresentam. Foi sim um regime brutal e que o «nosso Partido acertadamente definiu como um regime terrorista dos monopólios e latifundiários».

Apenas entre 1932 e 1960, foram mais de vinte mil as prisões efectuadas pelo fascismo.

Tempos de construção

A outra realidade, prosseguiu o secretário-geral do PCP, é que o 25 de Abril «não foi esse alucinante momento de violência e instabilidade desmedidas como este ano, outra vez, com insolência o apresentaram para justificar a contra-revolução». A Revolução de Abril foi sobretudo um tempo de «realização pessoal e colectiva, um tempo de construção e transformação que garantiu um património de conquistas populares de grande alcance e significado para os trabalhadores e para o povo», valorizou.

Lembrando a iniciativa e coragem dos capitães de Abril, o dirigente do PCP afirmou que «nada pode apagar o inestimável valor da luta de resistência ao fascismo e à criação das condições para a vitória das forças democráticas». Tal como nada pode apagar o papel dos trabalhadores e das massas populares na «transformação do golpe militar em revolução, em processo revolucionário». Jerónimo de Sousa reafirmou também que a «liberdade e a democracia não foram dádivas, foram conquistadas pela luta abnegada dos antifascistas, dos trabalhadores e do povo».

O Partido da resistência

No comício realizado no pátio da fortaleza de Peniche, Jerónimo de Sousa lembrou e homenageou os «muitos milhares de homens e mulheres de várias gerações que nas prisões da ditadura, mas também nas duras condições da luta clandestina ou na luta semi-legal e legal, nas fábricas e nos campos, nas universidades, nas colectividades, nos sindicatos, nos quartéis, nas ruas e praças deste País, resistiam à ditadura fascista e lutavam pela restauração da liberdade e da democracia». Nesta luta «valorosa e abnegada», sustentou, o PCP deu «uma contribuição sem paralelo». Foi, prosseguiu, o «único partido que se manteve ao longo de quase meio século de fascismo agindo e lutando ininterruptamente com dedicação e empenhamento revolucionário, apesar das perseguições, das prisões, das torturas, dos julgamentos, das condenações e dos assassinatos».

O Partido foi capaz de resistir e sobreviver porque criou «profundas raízes nos trabalhadores e nas massas populares e cujos anseios e aspirações interpretou e organizou», afirmou Jerónimo de Sousa.

Mas também, sublinhou, porque pôde contar no seu seio, «e esse é também um dos grandes segredos da sua capacidade de resistência e da sua vitalidade, com um numeroso conjunto de quadros e activos militantes de uma têmpera inquebrantável». Os aplausos sentidos completaram a homenagem.

Vontades inquebráveis

No palco do comício, o secretário-geral do PCP apareceu acompanhado por alguns ex-presos políticos e destacados militantes do PCP: Sérgio Vilarigues, António Dias Lourenço, Jaime Serra, Joaquim Gomes, Carlos Costa e Domingos Abrantes. Mas muitos outros estavam presentes.

Entre os milhares de pessoas que participaram na iniciativa, muitos tinham experimentado a prisão, a tortura, a resistência. A esses «intrépidos resistentes antifascistas» Jerónimo de Sousa reservou uma saudação, lembrando que o seu exemplo permanecerá como estímulo ao prosseguimento da luta.
«Muitos outros nos têm deixado, pela lei da vida, nos últimos tempos», recordou o secretário-geral do PCP. Estes militantes, destacou, deram um «incomparável contributo na luta de resistência à ditadura e à construção e afirmação do nosso Partido Comunista Português como um grande partido nacional da resistência, da liberdade, da democracia de Abril e do socialismo». Mas também lutaram «até ao fim das suas vidas pela concretização de importantes transformações revolucionárias e pela defesa, aprofundamento e consolidação do regime democrático». Durante uma longa salva de aplausos, ainda se conseguiu ouvir Jerónimo de Sousa afirmar que «perante eles nos curvamos, neste momento de celebração de Abril, exprimindo a nossa mais profunda gratidão».

A homenagem estendeu-se ainda aos que «não chegaram a viver esse momento alto da vida do nosso povo e do nosso Partido que foi a Revolução de Abril». Muitos que a «voragem do tempo teima em querer apagar da nossa memória, mas que nós temos o dever de os recordar e evocar». Grande parte deles, e são muitos milhares, destacou, são «simples operários, modestos trabalhadores, homens e mulheres simples do nosso povo que pelo olvido, como dizia o poeta, teciam a rede do Partido e das muitas lutas com que se fez a resistência ao fascismo». Os mesmos que, com o seu tenaz trabalho e a sua dedicação «alimentavam e construíam a esperança na vitória». Vitória essa que chegou numa madrugada de Abril.

A fuga de Janeiro de 1960
O regresso à liberdade combatente

A fortaleza de Peniche alberga muitas histórias que são parte da história do PCP e da resistência ao fascismo, destacou no local o secretário-geral do PCP. Uma delas, pela sua coragem e importância, mereceu especial referência: a fuga de 3 de Janeiro de 1960 que devolveu à liberdade e à luta dez destacados dirigentes e militantes do PCP, entre os quais Álvaro Cunhal.

«Recordamo-la aqui novamente, porque essa fuga para a liberdade combatente era, ao mesmo tempo, a fuga rumo à vitória», afirmou Jerónimo de Sousa, destacando que «com ela se inicia uma década de uma intensa actividade, a passagem a uma fase de luta qualitativamente superior na actividade do Partido». Aquele foi um tempo de «grandes e acertadas decisões que culminaram no VI Congresso do PCP, com a proposta de Programa que dava conteúdo à Revolução Democrática e Nacional», prosseguiu.

A fuga, a devolução à liberdade de destacados dirigentes do PCP e as importantes decisões tomadas, fizeram com que aqueles fossem também tempos de «grandes lutas dos trabalhadores e do povo, sempre em crescendo até ao 25 de Abril quer por reivindicações imediatas quer por reivindicações gerais». Após a fuga foram conquistados dezenas de sindicatos nacionais e foi criada a Intersindical, recordou o dirigente comunista.

A marca do Partido na luta

«Não é necessário ir muito longe para identificarmos a marca da luta e do trabalho do Partido desde os primeiros anos da ditadura militar e, depois, da ditadura fascista», afirmou Jerónimo de Sousa. Ao distrito de Leiria, recordou, chegou cedo a «malha de um Partido que nos anos de 1929/30 chegava à Marinha Grande para concretizar com êxito a unificação do sindicato vidreiro e potenciar e desenvolver a luta». Luta essa que culminou, realçou o secretário-geral do PCP, «nessa primeira batalha de massas e da classe operária – a revolta do 18 de Janeiro de 1934 – contra o regime que tinha como modelo o fascismo italiano de Mussolini». As lutas iam-se alargando a todo o País, «à medida que o Partido e afirmava e se virava para o trabalho das empresas, para a reorganização da intervenção sindical, para o desenvolvimento da luta reivindicativa».

Sob o impulso e direcção do Partido, desenvolveram-se grandes acções de massas contra o desemprego, em defesa das 8 horas de trabalho, pelo aumento dos salários. Ali ao lado de Peniche, no Bombarral, estalaram, em 3 de Abril de 1936, grandes lutas camponesas, lembrou o dirigente comunista. O PCP, prosseguiu Jerónimo de Sousa, «desde muito cedo selou com os trabalhadores e as massas populares um sólida e indissociável ligação que se prolongaria no tempo e em muitas lutas»: nos campos do Alentejo e do Ribatejo, nas empresas do Norte do País ou dos corticeiros do Algarve, dos têxteis da Covilhã, nas empresas das duas margens do Tejo, «desses grandes centros operários do Barreiro, de Almada, de Sacavém e de muitas outras terras».

Ao mesmo tempo que cresciam as lutas, lembrou Jerónimo de Sousa, desenvolvia-se um «refinado aparelho repressivo que se abateu logo nesses duros anos trinta de uma forma brutal sobre os mais experimentados quadros do nosso Partido». Mas nunca este aparelho «nem nas mais críticas situações foi capaz de vergar as fortes convicções» dos resistentes.


Artigo publicado na Edição Nº1692 do Avante